
Introdução
No coração das feiras nordestinas, entre bancas de frutas, cheiros de especiarias e vozes que se cruzam, surgem folhetos pendurados em cordas: são os livretos de cordel. Impressos em papel barato, mas carregados de poesia, eles contam histórias que atravessam gerações. O cordel é mais do que literatura: é performance, é memória coletiva, é uma forma de arte que se alimenta de outras linguagens e também as inspira.
Nascida de uma tradição ibérica, que chegou ao Brasil no período colonial, essa literatura se transformou em expressão tipicamente brasileira. Ganhou o sotaque nordestino, o ritmo das feiras e a força da oralidade popular. Desde o século XIX, folhetos rimados narram o cotidiano, registram lendas, falam de política e até recontam grandes acontecimentos históricos em versos acessíveis a todos.
Mas o cordel não se limitou às páginas impressas. Ele ganhou corpo na música, no teatro, na xilogravura que ilustra suas capas, no repente improvisado e até em artes visuais contemporâneas. É justamente nessa interação que reside sua vitalidade: o cordel não é estático, mas um organismo vivo que dialoga com outras formas artísticas e, assim, mantém sua relevância cultural no Brasil de hoje.
A Origem do Cordel e sua Relação com a Oralidade
Herança Ibérica e Transformação Brasileira
A palavra cordel vem do hábito português de pendurar livretos em cordas, à venda em feiras populares. Esses folhetos narravam feitos heroicos, histórias de santos, romances de cavalaria e lendas moralizantes. Quando chegaram ao Brasil, no século XVIII, foram apropriados e reinventados pelo povo nordestino.
Aqui, as narrativas deixaram de lado castelos e cavaleiros para falar do sertão, da seca, da vida do vaqueiro, dos milagres, da fé popular e das injustiças sociais. Foi nesse processo de adaptação que a literatura de cordel se tornou verdadeiramente brasileira, transformando o que era importado em algo íntimo e reconhecível pelo povo.
Oralidade como Essência
Mais do que ler em silêncio, o público ouvia o cordel. Poetas declamavam os versos em voz alta, muitas vezes acompanhados de violas, criando uma atmosfera de espetáculo. Essa performance aproximava o cordel do repente e da cantoria nordestina, em que a improvisação e o ritmo ganhavam protagonismo.
Essa característica oral fez com que o cordel funcionasse como uma espécie de “rádio popular” antes mesmo da invenção do rádio: informava, divertia e unia a comunidade em torno da palavra rimada.
O Cordel como Crônica da Vida Popular
O cordel se consolidou como um dos principais registros da cultura popular brasileira. Nos folhetos, é possível encontrar relatos de secas devastadoras, eleições, milagres de santos, histórias de cangaceiros como Lampião e Maria Bonita, e até versões rimadas de clássicos da literatura universal, como A Divina Comédia e Os Lusíadas.
Essa função múltipla — de jornal, de literatura, de memória coletiva — é o que explica sua força até hoje. Ao mesmo tempo em que preserva tradições, o cordel se abre ao diálogo com novas linguagens, criando uma rede cultural que conecta passado e presente.
O Cordel e sua Relação com as Artes Visuais
A Xilogravura como Identidade Visual
Quando pensamos em cordel, logo nos vêm à mente as capas em xilogravura — gravuras em madeira entalhada, depois impressas em papel. Essa técnica, introduzida no Brasil pelos colonizadores, ganhou força no Nordeste a partir do século XIX e se tornou parte inseparável da identidade do cordel.
Artistas como J. Borges, Dila e Amaro Francisco deram vida a imagens de cangaceiros, santos, vaqueiros e cenas do cotidiano, transformando a xilogravura em arte popular de prestígio internacional. Hoje, muitas dessas obras estão em museus como o MASP e o Museu de Arte Popular da Paraíba, mostrando como o cordel transbordou para o campo das artes visuais.
Ilustração e Estilo Popular
Mesmo quando não feita em xilogravura, a ilustração do cordel mantém um estilo direto, de traço forte e narrativa visual clara. A função da imagem não é apenas estética: é comunicativa, ajudando a atrair leitores em feiras e a traduzir o conteúdo do folheto.
Essa linguagem visual do cordel influenciou cartazes, capas de discos e até a publicidade, criando um repertório gráfico reconhecido como parte da cultura brasileira.
O Cordel como Inspiração para a Pintura Popular
Além da xilogravura, o cordel também inspirou a pintura popular nordestina, especialmente em murais e painéis que retratam cenas do sertão. Elementos do cordel aparecem reinterpretados por artistas eruditos e populares, criando uma ponte entre o universo das feiras e o das galerias.
Dessa forma, o cordel não se limita ao papel: ele se projeta em imagens, cores e símbolos que compõem um dos imaginários visuais mais ricos do Brasil.
O Cordel e a Música
Cantoria e Repente: Poesia Cantada
Desde o início, o cordel esteve ligado à música. Poetas populares declamavam seus versos em ritmo, acompanhados pela viola. Essa prática se aproximava da cantoria e do repente nordestino, formas de improviso rimado que transformavam poesia em espetáculo. Nessas rodas, os versos ganhavam vida na oralidade, e o público respondia, aplaudia, ria ou se emocionava.
Essa tradição mantém até hoje a força do cordel como arte performática, em que palavra e som são inseparáveis.
O Cordel na Música Popular Brasileira
A influência do cordel chegou à MPB. Artistas como Gilberto Gil, Elba Ramalho e Chico Buarque incorporaram temas e ritmos inspirados no universo do cordel. Muitas letras remetem à métrica e ao tom narrativo dos folhetos, trazendo para o palco a cadência poética das feiras nordestinas.
Um exemplo é a canção Nordeste Independente, que traduz em versos cantados a força identitária e contestatória presente no cordel.
Do Cordel ao Rap e ao Forró
Nos últimos anos, o cordel dialogou até mesmo com gêneros urbanos, como o rap, que também se constrói em rimas e narrativas sociais. Grupos de rap nordestinos reconhecem no cordel um ancestral da poesia falada, encontrando nele uma tradição que legitima sua própria prática.
No forró, o cordel também deixou marcas: letras que contam histórias, personagens que se repetem, humor e crítica social — todos elementos comuns às duas linguagens.
Assim, a música mostra como o cordel não apenas resiste, mas se reinventa continuamente em novos ritmos e gerações.
O Cordel no Teatro, no Cinema e na Cultura Popular
Cordel no Teatro Popular
O cordel sempre teve um caráter narrativo e performático, o que facilitou sua adaptação para o teatro. O Auto da Compadecida (1955), de Ariano Suassuna, é o exemplo mais célebre: inspirado em folhetos de cordel, mistura humor, crítica social e religiosidade em uma peça que se tornou patrimônio cultural brasileiro.
Outros grupos teatrais nordestinos também usam o cordel como base, transformando seus versos em diálogos, encenações de rua e espetáculos que mantêm viva a oralidade popular.
O Cordel no Cinema Brasileiro
A influência do cordel também chegou às telas. O filme O Auto da Compadecida (2000), dirigido por Guel Arraes, levou para o cinema a estética, o humor e o espírito crítico do cordel. Além dele, documentários e curtas-metragens têm registrado tanto a vida de cordelistas quanto a tradição das feiras, reforçando sua importância como forma de arte nacional.
A estrutura narrativa do cordel — com heróis populares, vilões caricatos e lições morais — se adapta facilmente ao cinema, reforçando sua capacidade de dialogar com diferentes linguagens.
Cordel e Cultura Popular Brasileira
O cordel está presente também em festas populares, procissões religiosas, quadrilhas juninas e celebrações regionais. Muitas vezes, versos rimados acompanham festejos, reforçando a identidade cultural nordestina.
Essa presença cotidiana faz do cordel não apenas literatura, mas também performance social e expressão coletiva. Ele se espalha pela cultura brasileira como um fio invisível que costura fé, humor, crítica e imaginação.
O Cordel no Século XXI
O Cordel na Era Digital
Se antes os folhetos dependiam das feiras e mercados, hoje o cordel encontrou na internet um novo espaço de circulação. Cordelistas divulgam suas obras em blogs, redes sociais e até em e-books, alcançando leitores que estão muito além do Nordeste. Essa migração para o digital mantém viva a tradição, ao mesmo tempo em que adapta a linguagem para novos públicos.
Vídeos de declamações e performances de cordelistas viralizam, ampliando a força da oralidade e mostrando que o cordel continua sendo uma arte de performance, mesmo nas telas dos celulares.
O Cordel nas Escolas
Nos últimos anos, o cordel passou a ser valorizado como ferramenta pedagógica. Escolas de diferentes regiões do Brasil utilizam o cordel para ensinar literatura, história, geografia e até matemática, por meio de versos rimados.
Essa presença no ambiente escolar reforça o reconhecimento do cordel como patrimônio cultural imaterial e garante que novas gerações tenham contato com a tradição.
Cordel e Artes Contemporâneas
Artistas contemporâneos têm buscado no cordel uma fonte de inspiração. Instalações, performances e exposições utilizam a métrica rimada e a xilogravura como elementos estéticos, ressignificando o cordel em contextos modernos.
O resultado é um diálogo fértil: o cordel mantém sua autenticidade popular, mas também se abre para o mundo da arte contemporânea, mostrando que tradição e inovação não são opostos, mas caminhos que se encontram.
Curiosidades sobre a Literatura de Cordel 🎨📚
- Cordel e Jornalismo – Muitos folhetos funcionavam como jornais populares, noticiando secas, crimes, milagres e até eleições.
- Patrimônio Imaterial – Em 2018, a literatura de cordel foi reconhecida pelo IPHAN como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
- Cordel no Exterior – Exposições de cordel e xilogravura já foram realizadas em países como França e Alemanha, consolidando o gênero como arte global.
- Clássicos em Cordel – Obras como A Divina Comédia e Dom Quixote já ganharam versões rimadas em folhetos de cordel no Brasil.
- Cordel e Política – Muitos cordéis criticaram governos, denunciaram injustiças e serviram como voz popular em tempos de censura.
- J. Borges e o Cordel – Considerado um dos maiores xilogravuristas do Brasil, J. Borges também é cordelista e mantém viva a tradição com oficinas e publicações.
- Cordel e Educação – Além de escolas, universidades utilizam o cordel como objeto de pesquisa acadêmica em literatura e antropologia.
- Cordel Feminino – Embora dominado por homens, o gênero também tem cordelistas mulheres, como Madalena Castro e Rosa Ramalho, que ampliam temas e perspectivas.
- O Cordel e Música Urbana – Alguns rappers nordestinos reconhecem o cordel como antecessor direto do rap, pela métrica, rima e crítica social.
- Cordel Interativo – Hoje já existem aplicativos e projetos digitais que transformam cordéis em experiências multimídia, com áudio, ilustração e até animação.
Conclusão – O Cordel como Arte que Une o Brasil
A literatura de cordel é prova de que a arte popular pode ser, ao mesmo tempo, tradição e inovação. Desde os folhetos pendurados em feiras até as declamações nas redes sociais, o cordel nunca deixou de dialogar com outras linguagens. Ele se entrelaça com a xilogravura, a música, o teatro, o cinema e até a arte contemporânea, mostrando que sua força está na capacidade de circular, se adaptar e emocionar.
Mais do que poesia, o cordel é memória coletiva e identidade cultural. Ele registra as dores e alegrias do povo, transforma a vida cotidiana em verso e cria pontes entre o popular e o erudito. No século XXI, segue vivo e reinventado, lembrando-nos de que a arte brasileira é feita de encontros — entre passado e presente, entre tradição e modernidade, entre palavra e imagem.
O cordel continua sendo, assim, um dos maiores patrimônios culturais do Brasil: uma arte que não apenas conta histórias, mas também conecta mundos.
Dúvidas Frequentes sobre Literatura de Cordel
O que é literatura de cordel?
São folhetos poéticos rimados, vendidos em feiras populares e recitados em voz alta, unindo poesia e tradição oral.
Como surgiu a literatura de cordel no Brasil?
Veio de Portugal no século XVI e se consolidou no Nordeste no século XIX, adaptada a temas locais e culturais.
Por que recebe o nome de “cordel”?
Porque em Portugal os folhetos eram expostos pendurados em cordas, chamadas “cordéis”.
Qual a relação entre cordel e xilogravura?
As capas dos folhetos são ilustradas com xilogravuras, tornando-se uma marca visual do gênero.
Quem são alguns artistas ligados ao cordel?
J. Borges, Patativa do Assaré e Ariano Suassuna são nomes centrais na difusão e valorização do cordel.
O cordel influenciou a música brasileira?
Sim, dialoga com o repente, a cantoria e influenciou a MPB e até o rap, com sua métrica rimada e narrativa poética.
Existe relação entre cordel e teatro?
Sim. Peças como O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foram inspiradas na tradição do cordel.
O cordel já chegou ao cinema?
Sim. O Auto da Compadecida (2000) é o exemplo mais famoso, além de documentários sobre cordelistas.
Quais são os principais temas do cordel?
Amor, humor, política, religião, heróis populares, tragédias, lendas e críticas sociais.
O cordel funciona como registro histórico?
Sim. Ele atua como crônica popular, registrando secas, milagres, crimes e acontecimentos políticos.
O cordel ainda é produzido hoje?
Sim. É publicado em feiras, editoras independentes e também na internet, em blogs e redes sociais.
O cordel é usado em escolas?
Sim. É recurso pedagógico para estimular leitura, criatividade e valorização da cultura popular.
O cordel influencia a arte contemporânea?
Sim. A métrica e a xilogravura inspiram artistas plásticos, instalações e performances atuais.
O cordel é só do Nordeste?
Não. Embora tenha nascido e se consolidado lá, hoje é produzido em todo o Brasil.
Por que o cordel é patrimônio cultural?
Porque reúne oralidade, escrita, música e artes visuais em uma tradição reconhecida pelo IPHAN como patrimônio imaterial.
Livros de Referência para Este Artigo
Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
Descrição: Clássico da antropologia e do folclore, com ampla entrada sobre cordel e suas conexões.
Abreu, Márcia. Histórias de Cordéis e Folhetos.
Descrição: Obra fundamental para entender a história editorial e a circulação do cordel no Brasil.
Suassuna, Ariano. O Auto da Compadecida.
Descrição: Exemplo clássico da influência do cordel no teatro brasileiro.
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