Obras Certificadas em 10x + Frete Grátis!

Como a Literatura de Cordel Interage com Outras Formas de Arte no Brasil?

Introdução

No coração das feiras nordestinas, entre bancas de frutas, cheiros de especiarias e vozes que se cruzam, surgem folhetos pendurados em cordas: são os livretos de cordel. Impressos em papel barato, mas carregados de poesia, eles contam histórias que atravessam gerações. O cordel é mais do que literatura: é performance, é memória coletiva, é uma forma de arte que se alimenta de outras linguagens e também as inspira.

Nascida de uma tradição ibérica, que chegou ao Brasil no período colonial, essa literatura se transformou em expressão tipicamente brasileira. Ganhou o sotaque nordestino, o ritmo das feiras e a força da oralidade popular. Desde o século XIX, folhetos rimados narram o cotidiano, registram lendas, falam de política e até recontam grandes acontecimentos históricos em versos acessíveis a todos.

Mas o cordel não se limitou às páginas impressas. Ele ganhou corpo na música, no teatro, na xilogravura que ilustra suas capas, no repente improvisado e até em artes visuais contemporâneas. É justamente nessa interação que reside sua vitalidade: o cordel não é estático, mas um organismo vivo que dialoga com outras formas artísticas e, assim, mantém sua relevância cultural no Brasil de hoje.

A Origem do Cordel e sua Relação com a Oralidade

Herança Ibérica e Transformação Brasileira

A palavra cordel vem do hábito português de pendurar livretos em cordas, à venda em feiras populares. Esses folhetos narravam feitos heroicos, histórias de santos, romances de cavalaria e lendas moralizantes. Quando chegaram ao Brasil, no século XVIII, foram apropriados e reinventados pelo povo nordestino.

Aqui, as narrativas deixaram de lado castelos e cavaleiros para falar do sertão, da seca, da vida do vaqueiro, dos milagres, da fé popular e das injustiças sociais. Foi nesse processo de adaptação que a literatura de cordel se tornou verdadeiramente brasileira, transformando o que era importado em algo íntimo e reconhecível pelo povo.

Oralidade como Essência

Mais do que ler em silêncio, o público ouvia o cordel. Poetas declamavam os versos em voz alta, muitas vezes acompanhados de violas, criando uma atmosfera de espetáculo. Essa performance aproximava o cordel do repente e da cantoria nordestina, em que a improvisação e o ritmo ganhavam protagonismo.

Essa característica oral fez com que o cordel funcionasse como uma espécie de “rádio popular” antes mesmo da invenção do rádio: informava, divertia e unia a comunidade em torno da palavra rimada.

O Cordel como Crônica da Vida Popular

O cordel se consolidou como um dos principais registros da cultura popular brasileira. Nos folhetos, é possível encontrar relatos de secas devastadoras, eleições, milagres de santos, histórias de cangaceiros como Lampião e Maria Bonita, e até versões rimadas de clássicos da literatura universal, como A Divina Comédia e Os Lusíadas.

Essa função múltipla — de jornal, de literatura, de memória coletiva — é o que explica sua força até hoje. Ao mesmo tempo em que preserva tradições, o cordel se abre ao diálogo com novas linguagens, criando uma rede cultural que conecta passado e presente.

O Cordel e sua Relação com as Artes Visuais

A Xilogravura como Identidade Visual

Quando pensamos em cordel, logo nos vêm à mente as capas em xilogravura — gravuras em madeira entalhada, depois impressas em papel. Essa técnica, introduzida no Brasil pelos colonizadores, ganhou força no Nordeste a partir do século XIX e se tornou parte inseparável da identidade do cordel.

Artistas como J. Borges, Dila e Amaro Francisco deram vida a imagens de cangaceiros, santos, vaqueiros e cenas do cotidiano, transformando a xilogravura em arte popular de prestígio internacional. Hoje, muitas dessas obras estão em museus como o MASP e o Museu de Arte Popular da Paraíba, mostrando como o cordel transbordou para o campo das artes visuais.

Ilustração e Estilo Popular

Mesmo quando não feita em xilogravura, a ilustração do cordel mantém um estilo direto, de traço forte e narrativa visual clara. A função da imagem não é apenas estética: é comunicativa, ajudando a atrair leitores em feiras e a traduzir o conteúdo do folheto.

Essa linguagem visual do cordel influenciou cartazes, capas de discos e até a publicidade, criando um repertório gráfico reconhecido como parte da cultura brasileira.

O Cordel como Inspiração para a Pintura Popular

Além da xilogravura, o cordel também inspirou a pintura popular nordestina, especialmente em murais e painéis que retratam cenas do sertão. Elementos do cordel aparecem reinterpretados por artistas eruditos e populares, criando uma ponte entre o universo das feiras e o das galerias.

Dessa forma, o cordel não se limita ao papel: ele se projeta em imagens, cores e símbolos que compõem um dos imaginários visuais mais ricos do Brasil.

O Cordel e a Música

Cantoria e Repente: Poesia Cantada

Desde o início, o cordel esteve ligado à música. Poetas populares declamavam seus versos em ritmo, acompanhados pela viola. Essa prática se aproximava da cantoria e do repente nordestino, formas de improviso rimado que transformavam poesia em espetáculo. Nessas rodas, os versos ganhavam vida na oralidade, e o público respondia, aplaudia, ria ou se emocionava.

Essa tradição mantém até hoje a força do cordel como arte performática, em que palavra e som são inseparáveis.

O Cordel na Música Popular Brasileira

A influência do cordel chegou à MPB. Artistas como Gilberto Gil, Elba Ramalho e Chico Buarque incorporaram temas e ritmos inspirados no universo do cordel. Muitas letras remetem à métrica e ao tom narrativo dos folhetos, trazendo para o palco a cadência poética das feiras nordestinas.

Um exemplo é a canção Nordeste Independente, que traduz em versos cantados a força identitária e contestatória presente no cordel.

Do Cordel ao Rap e ao Forró

Nos últimos anos, o cordel dialogou até mesmo com gêneros urbanos, como o rap, que também se constrói em rimas e narrativas sociais. Grupos de rap nordestinos reconhecem no cordel um ancestral da poesia falada, encontrando nele uma tradição que legitima sua própria prática.

No forró, o cordel também deixou marcas: letras que contam histórias, personagens que se repetem, humor e crítica social — todos elementos comuns às duas linguagens.

Assim, a música mostra como o cordel não apenas resiste, mas se reinventa continuamente em novos ritmos e gerações.

O Cordel no Teatro, no Cinema e na Cultura Popular

Cordel no Teatro Popular

O cordel sempre teve um caráter narrativo e performático, o que facilitou sua adaptação para o teatro. O Auto da Compadecida (1955), de Ariano Suassuna, é o exemplo mais célebre: inspirado em folhetos de cordel, mistura humor, crítica social e religiosidade em uma peça que se tornou patrimônio cultural brasileiro.

Outros grupos teatrais nordestinos também usam o cordel como base, transformando seus versos em diálogos, encenações de rua e espetáculos que mantêm viva a oralidade popular.

O Cordel no Cinema Brasileiro

A influência do cordel também chegou às telas. O filme O Auto da Compadecida (2000), dirigido por Guel Arraes, levou para o cinema a estética, o humor e o espírito crítico do cordel. Além dele, documentários e curtas-metragens têm registrado tanto a vida de cordelistas quanto a tradição das feiras, reforçando sua importância como forma de arte nacional.

A estrutura narrativa do cordel — com heróis populares, vilões caricatos e lições morais — se adapta facilmente ao cinema, reforçando sua capacidade de dialogar com diferentes linguagens.

Cordel e Cultura Popular Brasileira

O cordel está presente também em festas populares, procissões religiosas, quadrilhas juninas e celebrações regionais. Muitas vezes, versos rimados acompanham festejos, reforçando a identidade cultural nordestina.

Essa presença cotidiana faz do cordel não apenas literatura, mas também performance social e expressão coletiva. Ele se espalha pela cultura brasileira como um fio invisível que costura fé, humor, crítica e imaginação.

O Cordel no Século XXI

O Cordel na Era Digital

Se antes os folhetos dependiam das feiras e mercados, hoje o cordel encontrou na internet um novo espaço de circulação. Cordelistas divulgam suas obras em blogs, redes sociais e até em e-books, alcançando leitores que estão muito além do Nordeste. Essa migração para o digital mantém viva a tradição, ao mesmo tempo em que adapta a linguagem para novos públicos.

Vídeos de declamações e performances de cordelistas viralizam, ampliando a força da oralidade e mostrando que o cordel continua sendo uma arte de performance, mesmo nas telas dos celulares.

O Cordel nas Escolas

Nos últimos anos, o cordel passou a ser valorizado como ferramenta pedagógica. Escolas de diferentes regiões do Brasil utilizam o cordel para ensinar literatura, história, geografia e até matemática, por meio de versos rimados.

Essa presença no ambiente escolar reforça o reconhecimento do cordel como patrimônio cultural imaterial e garante que novas gerações tenham contato com a tradição.

Cordel e Artes Contemporâneas

Artistas contemporâneos têm buscado no cordel uma fonte de inspiração. Instalações, performances e exposições utilizam a métrica rimada e a xilogravura como elementos estéticos, ressignificando o cordel em contextos modernos.

O resultado é um diálogo fértil: o cordel mantém sua autenticidade popular, mas também se abre para o mundo da arte contemporânea, mostrando que tradição e inovação não são opostos, mas caminhos que se encontram.

Curiosidades sobre a Literatura de Cordel 🎨📚

  • Cordel e Jornalismo – Muitos folhetos funcionavam como jornais populares, noticiando secas, crimes, milagres e até eleições.
  • Patrimônio Imaterial – Em 2018, a literatura de cordel foi reconhecida pelo IPHAN como patrimônio cultural imaterial do Brasil.
  • Cordel no Exterior – Exposições de cordel e xilogravura já foram realizadas em países como França e Alemanha, consolidando o gênero como arte global.
  • Clássicos em Cordel – Obras como A Divina Comédia e Dom Quixote já ganharam versões rimadas em folhetos de cordel no Brasil.
  • Cordel e Política – Muitos cordéis criticaram governos, denunciaram injustiças e serviram como voz popular em tempos de censura.
  • J. Borges e o Cordel – Considerado um dos maiores xilogravuristas do Brasil, J. Borges também é cordelista e mantém viva a tradição com oficinas e publicações.
  • Cordel e Educação – Além de escolas, universidades utilizam o cordel como objeto de pesquisa acadêmica em literatura e antropologia.
  • Cordel Feminino – Embora dominado por homens, o gênero também tem cordelistas mulheres, como Madalena Castro e Rosa Ramalho, que ampliam temas e perspectivas.
  • O Cordel e Música Urbana – Alguns rappers nordestinos reconhecem o cordel como antecessor direto do rap, pela métrica, rima e crítica social.
  • Cordel Interativo – Hoje já existem aplicativos e projetos digitais que transformam cordéis em experiências multimídia, com áudio, ilustração e até animação.

Conclusão – O Cordel como Arte que Une o Brasil

A literatura de cordel é prova de que a arte popular pode ser, ao mesmo tempo, tradição e inovação. Desde os folhetos pendurados em feiras até as declamações nas redes sociais, o cordel nunca deixou de dialogar com outras linguagens. Ele se entrelaça com a xilogravura, a música, o teatro, o cinema e até a arte contemporânea, mostrando que sua força está na capacidade de circular, se adaptar e emocionar.

Mais do que poesia, o cordel é memória coletiva e identidade cultural. Ele registra as dores e alegrias do povo, transforma a vida cotidiana em verso e cria pontes entre o popular e o erudito. No século XXI, segue vivo e reinventado, lembrando-nos de que a arte brasileira é feita de encontros — entre passado e presente, entre tradição e modernidade, entre palavra e imagem.

O cordel continua sendo, assim, um dos maiores patrimônios culturais do Brasil: uma arte que não apenas conta histórias, mas também conecta mundos.

Dúvidas Frequentes sobre Literatura de Cordel

O que é literatura de cordel?

São folhetos poéticos rimados, vendidos em feiras populares e recitados em voz alta, unindo poesia e tradição oral.

Como surgiu a literatura de cordel no Brasil?

Veio de Portugal no século XVI e se consolidou no Nordeste no século XIX, adaptada a temas locais e culturais.

Por que recebe o nome de “cordel”?

Porque em Portugal os folhetos eram expostos pendurados em cordas, chamadas “cordéis”.

Qual a relação entre cordel e xilogravura?

As capas dos folhetos são ilustradas com xilogravuras, tornando-se uma marca visual do gênero.

Quem são alguns artistas ligados ao cordel?

J. Borges, Patativa do Assaré e Ariano Suassuna são nomes centrais na difusão e valorização do cordel.

O cordel influenciou a música brasileira?

Sim, dialoga com o repente, a cantoria e influenciou a MPB e até o rap, com sua métrica rimada e narrativa poética.

Existe relação entre cordel e teatro?

Sim. Peças como O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foram inspiradas na tradição do cordel.

O cordel já chegou ao cinema?

Sim. O Auto da Compadecida (2000) é o exemplo mais famoso, além de documentários sobre cordelistas.

Quais são os principais temas do cordel?

Amor, humor, política, religião, heróis populares, tragédias, lendas e críticas sociais.

O cordel funciona como registro histórico?

Sim. Ele atua como crônica popular, registrando secas, milagres, crimes e acontecimentos políticos.

O cordel ainda é produzido hoje?

Sim. É publicado em feiras, editoras independentes e também na internet, em blogs e redes sociais.

O cordel é usado em escolas?

Sim. É recurso pedagógico para estimular leitura, criatividade e valorização da cultura popular.

O cordel influencia a arte contemporânea?

Sim. A métrica e a xilogravura inspiram artistas plásticos, instalações e performances atuais.

O cordel é só do Nordeste?

Não. Embora tenha nascido e se consolidado lá, hoje é produzido em todo o Brasil.

Por que o cordel é patrimônio cultural?

Porque reúne oralidade, escrita, música e artes visuais em uma tradição reconhecida pelo IPHAN como patrimônio imaterial.

Livros de Referência para Este Artigo

Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.

Descrição: Clássico da antropologia e do folclore, com ampla entrada sobre cordel e suas conexões.

Abreu, Márcia. Histórias de Cordéis e Folhetos.

Descrição: Obra fundamental para entender a história editorial e a circulação do cordel no Brasil.

Suassuna, Ariano. O Auto da Compadecida.

Descrição: Exemplo clássico da influência do cordel no teatro brasileiro.

🎨 Explore Mais! Confira nossos Últimos Artigos 📚

Quer mergulhar mais fundo no universo fascinante da arte? Nossos artigos recentes estão repletos de histórias surpreendentes e descobertas emocionantes sobre artistas pioneiros e reviravoltas no mundo da arte. 👉 Saiba mais em nosso Blog da Brazil Artes.

De robôs artistas a ícones do passado, cada artigo é uma jornada única pela criatividade e inovação. Clique aqui e embarque em uma viagem de pura inspiração artística!

Conheça a Brazil Artes no Instagram 🇧🇷🎨

Aprofunde-se no universo artístico através do nosso perfil @brazilartes no Instagram. Faça parte de uma comunidade apaixonada por arte, onde você pode se manter atualizado com as maravilhas do mundo artístico de forma educacional e cultural.

Não perca a chance de se conectar conosco e explorar a exuberância da arte em todas as suas formas!

⚠️ Ei, um Aviso Importante para Você…

Agradecemos por nos acompanhar nesta viagem encantadora através da ‘CuriosArt’. Esperamos que cada descoberta artística tenha acendido uma chama de curiosidade e admiração em você.

Mas lembre-se, esta é apenas a porta de entrada para um universo repleto de maravilhas inexploradas.

Sendo assim, então, continue conosco na ‘CuriosArt’ para mais aventuras fascinantes no mundo da arte.

Quais as Características da Obra ‘A Grande Onda de Kanagawa’ de Katsushika Hokusai?
Quais Foram os Impactos do Modernismo na Literatura e Artes Visuais Brasileiras?
Fechar Carrinho de Compras
Fechar Favoritos
Obras vistas Recentemente Close
Fechar

Fechar
Menu da Galeria
Categorias